Homofobia mata!
junho 1st, 2011 § Deixe um comentário
Não sei em que ponto da história virou liberdade de expressão discriminar uma pessoa.
Se, de repente, eu falar pra alguém “seu p****/j****/v**** fdp”, isso é considerado como liberdade de expressão? Acho que preconceito é a palavra que mais cabe aqui, não liberdade de expressão.
Há uma diferença monstruosa entre PRECONCEITO e LIBERDADE DE EXPRESSÃO. A primeira reflete um juízo pré-concebido a respeito de determinadas coisas (ideias, atitudes, costumes, etc), e é frequentemente associada à ações discriminatórias simplesmente pelo fato de estas coisas serem diferentes. A segunda relaciona-se com o direito de se manifestar sobre os mais diversos temas sem que haja opressão. Tá, mas onde está mesmo está a diferença?
A diferença é que liberdade de expressão não implica na repressão, não implica em agressividade e muito menos na segregação. Tais atitudes são consideradas crimes na nossa sociedade. Discriminação é crime e, portanto, nenhuma liberdade de expressão pode se sobrepor ao direito de outra pessoa.
Ótimo. Tudo isso aí em cima veio porque me deparei com a manifestação da Marcha Cristã, que é contra o Projeto de Lei 122. Nas palavras do site não homofobia,
“O projeto torna crime a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero – equiparando esta situação à discriminação de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, sexo e gênero, ficando o autor do crime sujeito a pena, reclusão e multa.“
E, nas palavras do pastor Silas Malafaia, o líder da manifestação,
“Essa é uma lei vergonhosa, que finge proteger a prática homossexual, porém, sua intenção real é colocar uma mordaça na sociedade e criminalizar os que são contra o comportamento homossexual. Com essa lei querem atingir as famílias, as questões religiosas e a liberdade de expressão.”
Liberdade de expressão?? Desde quando todo mundo agora tem que ser a favor da homossexualidade? É possível que alguém ache o maior dos absurdos um homem fazer sexo com outro homem – ou vice-versa, ou uma mulher querer virar homem – ou vice-versa, mas não é por este motivo que estas pessoas DIFERENTES precisam ser agredidas moral, verbal, ou fisicamente. A não-aceitação de um fato não dá o direito de querer mudar o fato, ainda mais quando o fato implica no direito como ser humano.
O que é fato é que estamos assistindo sentados ao aumento dos crimes contra homossexuais, transexuais e travestis porque algumas pessoas se sentem no direito de educar estes “pobres filhos do demo” e colocá-los no caminho certo. Aliás, se o caminho certo for ir lá pro ceu conhecer deus eu tô fora!
Como uma pessoa da igreja bola de neve (que pra mim sempre lembra sorvete, não sei por quê) disse:
“A gente ama as pessoas, mas no Brasil a gente tem que ter liberdade de expressão. Um exemplo disso é se eu vir homossexuais se beijando e eu não concordar com isso, eu posso ser preso e pegar de 2 a 5 anos de prisão”
Não quero saber o que esse cara quer dizer com “não concordar” e poder se expressar livremente, mas espero muito que não signifique o que está nesta faixa verde no canto direito:
Nesta faixa, lê-se (com uma certa dificuldade):
“Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte” Levítico 20,13
Grotesco, né? Juro que se isso não é incitação ao crime eu não sei o que é então…
Infelizmente, este assunto ainda vai dar polêmica pra muitos anos, ainda existem muitos zémanés conservadores que não conseguem aceitar que pessoas do mesmo sexo podem fazer sexo (!)
Só torço pra que estes que não aceitam também não tentem mudar os outros, porque a beleza da vida é a diversidade. E homofobia mata sim!
(todas as fotos deste post são do Roberto Jayme, pro UOL)
Um pequeno adendo neste post: fui procurar a frase do Levítico 20,13 na internet e achei um texto interessante sobre a questão da homossexualidade na bíblia referindo-se à esta e outras frases. Reproduzo aqui as partes que interessam:
(…) é muito incoerente e até inconveniente tirar alguns versículos das Escrituras de seu contexto e tentar aplicá-los no mundo de hoje. Podemos também questionar a validade de se aplicar algumas passagens da Bíblia a um determinado grupo de pessoas e simplesmente ignorar o resto. Nos parece ridículo tentar aplicar nos dias de hoje as passagens do Levítico 1,5-9; 11,7-8; 11,12; 18,19; 19,19; 19,27; 21,16-20; 25,44, isto para mencionar apenas algumas passagens.(…)
Obviamente relações incestuosas e adúlteras, (…) viola a Lei do Amor, mas não o amor sincero e compartilhado entre duas pessoas que, por acaso, são do mesmo sexo. Tão simples assim.
Mas por outro lado: Será tão simples assim??? Está bem claro na Bíblia: “um homem não se deitará com outro homem como se fosse com uma mulher porque isto é uma abominação”, ou “repugnante”, conforme outra versão… Se isso não for uma condenação à homossexualidade o que é isto? E porque está lá então? Nós queremos que este estudo seja completo, sem deixar áreas nebulosas, com dúvidas. Apesar de que está claro que não podemos pinçar umas passagens e aplicá-las nos dias de hoje, a pergunta então é: quando e a quem esta passagem foi dirigida? Se é que foi, algum dia. Será que essa passagem foi dirigida a algum grupo de homossexuais da Antiguidade? Para respondermos a tais questões, precisamos observar esses versículos dentro de seu contexto.
Primeiramente devemos entender que naquela época as pessoas não tinham a concepção de homossexualidade como nós temos hoje em dia. Tratava-se de uma sociedade patriarcal, gerida e administrada pelos homens, na qual as mulheres eram consideradas propriedades dos homens. Naquela época, sexo geralmente não tinha muito a ver com amor e muito menos com carinho. Sexo era meio de procriação e, de prazer para os homens, mas o sexo também era sinal de dominação. Após as batalhas, era comum que os vitoriosos praticassem sexo forçado com os derrotados, a fim de humilhá-los. Proprietários de escravos podiam normalmente praticar sexo forçado com estes como uma atitude de dominação, ou para seu prazer. Para um homem livre, deitar-se com outro homem livre da mesma tribo ou comunidade, significaria uma dominação; seria comparável a reduzi-lo ao “status” de uma mulher, isso o desonraria. Por isso era proibido, ou expressamente desaconselhável. (…)
(não sou historiadora e nem entendo de história, mas achei bem interessante essa visão. Se está correta ou não não sou eu quem vou dizer).

